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sexta-feira, 15 de maio de 2026
quarta-feira, 13 de maio de 2026
A orientadora
Quando fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na graduação em filosofia, eu precisava ter um orientador para poder me matricular na disciplina. Nas voltas que o mundo dá, acabei fazendo uma escolha por comodidade: uma orientadora que não perturbasse. Não me importava o filósofo, não me importava a linha, não me importava o problema, eu só não queria encheção de saco. E assim foi.
Depois da matrícula encontrei minha orientadora apenas duas vezes antes da defesa. A primeira para discutir temas e possibilidades e a segunda para escutar feedback do trabalho pronto. Todos ficaram satisfeitos.
Ironia do destino é que gostei demais do trabalho: do autor, da questão, de como desenvolvi, tudo mesmo. E isso me inspirou a continuar a pesquisa na pós-graduação.
Quando submeti o projeto de doutorado a perspectiva, entretanto, era outra: queria um orientador que fosse me instigar, me exigir, me proporcionar aprofundamento e colaborar para um trabalho de excelência. Mas como desvincular daquela que acolheu e se gabou do resultado? Não teve jeito...
Bem, jeito até tem, mas implicaria em desgastes, decepções e, bem provavelmente, retaliações. Até foi aventada a possibilidade de uma coorientação; eu mesmo descartei pois seriam duas posições muito diversas e confrontantes. Final das contas, mantive a escolha lá de trás.
Como dizia Heráclito: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. A pessoa muda, o rio muda, tudo muda. Vivemos a impermanência. Diante disso, é natural que uma escolha que tenha feito sentido no passado, possa não fazer no presente. A questão é reconhecer e conseguir lidar com isso.
Isso não é sobre orientação.
domingo, 3 de maio de 2026
Estratégias Bauman
Quando se é diferente, é preciso criar estratégias de sobrevivência, mecanismos para se tornar funcional em um ambiente naturalmente inóspito.
Quero ser sociável, quero estar no meio de gente, mas tenho certa dificuldade. Reconheço hoje que tenho duas estratégias para viabilizar isso. Não foram construções consciente, não foram coisas pensadas e organizadas metodicamente, mas é bem evidente que há um modus operandi padrão, que o tempo consolidou e aprimorou.
A primeira tática é a de servir. Há duas formas de estar no meio de muita gente: interagindo ou sendo útil. Eu busco a segunda. Sempre. É mais fácil convidar, organizar, servir, ajudar e conviver en passant, que dedicar foco a conversas que, na maioria das vezes, ou não me pertencem, ou fogem dos meus domínios / interesses.
A segunda abordagem é a de focar nas crianças. Os pequenos sempre estão mais abertos a aleatoriedades, sempre são mais acolhedores e, por mais que sejam inquisidores e curiosos, jamais são julgadores. São interações mais leves, mais alegres e que nunca falham no sucesso. É certeza de conseguir ficar à vontade e de aprender coisas novas.
Ambas as estratégias possuem um ponto negativo comum: não promovem aprofundamento. São convívios superficiais, sem densidade, com pouca possibilidade de continuação. Esse tipo de relação é mais fácil, mas não me agrada.
É a filosofia de Bauman, o polonês da modernidade líquida. Para ele, as relações contemporâneas são frágeis, efêmeras e superficiais. É triste, mas é real. E eu, em total consciência, me submeto a esse paradoxo: almejo relações que não são alcançadas pelas ações que promovo.
Preciso repensar? Sim! Mas não foi nesse feriado.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
3 x 4, um retrato pra Iaiá (pt. 2)
Essa semana eu li que houve certo frisson nas redes sociais com a possibilidade de uma reunião dos Los Hermanos. “Bloco do eu sozinho”, segundo disco da banda, completou 25 anos, daí tem rolado algumas homenagens de fãs e covers, e, no último final de semana, rolou um show puxado pelo baterista original, Rodrigo Barba, com a presença do naipe de metais que sempre acompanhou os caras. Expectativa muito plausível e, sem dúvida, maravilhosa.
Esperança semelhante foi nutrida pelos fãs de Engenheiros do
Hawaii no ano passado. Augusto Licks retornou de não se sabe onde, do neida, e
se juntou a Carlos Maltz, que já tinha abandonado a música e virado psicólogo
junguiano. Foi aventada a possibilidade de um encontro da formação clássica do
EngHaw, com Humberto Gessinger. Difícil, mas não impossível, ainda mais depois
do encontro de Titãs, RPM, Barão Vermelho e Dado e Bonfá.
Pensa se voltam à ativa? Mais ainda, e se tocassem juntos? Ahhh,
enorme devaneio, mundo de possibilidades. Sei que é uma utopia, mas me ocorreu
hoje e me fez sorrir.
Los Hermanos passou perrengue externo. Sucesso enorme que é difícil
assimilar e lidar com; grande introspecção; retorno com personalidade e autoafirmação;
fidelização de quem realmente estava junto; entrega ao que de fato importa.
Ainda há amizade e ainda há respeito.
Engenheiros tretou internamente. Enquanto ganhavam espaço,
rixas internas rolavam, diferenças de valores emergiam e se consolidavam
incompatibilidades de convivência. Troca formação, novas tentativas e, no fim, carreira
solo. Aparentemente pesa rancor e dificuldade de olhar além do próprio umbigo.
Independente dos motivos e do tipo do desgaste, acho que nos
dois casos, já era. Mesmo porque não faz sentido especulação nostálgica do
passado. Não é a toa que Camus afirma que um “não” não é uma recusa, mas a
afirmação de um limite, de uma dignidade. Em outras palavras, o desvio de um
caminho trata muito mais de novas possibilidades do que de possíveis limitações.
No mais, perdão, gratidão, saudades.
P.S.1: como diz a trend: isso não é sobre bandas.
P.S. 2: hoje tem dose dupla, em Uberlândia tem Dom Capaz no
London Pub, em BH rola Engenheiros do Uai no The Pug.
P.S. 3: título novo e pertinente seria: Mais uma canção, Por
acaso.

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