Na minha infância, férias era sinônimo de ir para a fazenda do meu avô. E estar na fazenda significava, dentre muitas coisas, me esbaldar com doce de leite. Aquele doce de leite único, feito no tacho de cobre e no fogão a lenha, com leite tirado na hora... Hummmm!
Em toda Minas Gerais é fácil de se encontrar doce de leite. No mercado central de BH, fica até difícil de escolher. Tem opção em pasta, em barra, cubo, no saquinho... Se não bastasse, se pode escolher entre o caseiro e o industrializado, entre o clarinho e o escuro, se quer mais ou menos pastoso, e assim vai. Mas acontece que nenhum é igual aquele da fazenda do meu avô.
E não era apenas o sabor. Tinha todo um ritual de curtir o calor ao lado do fogão, vendo a lenha estalar enquanto se derretia em brasas. E ao ver aquele imenso redemoindo criado pela colher de pau que girava sem cessar, já me imaginava navegando naquale mar de leite adocicado. E como quem espera o sol nascer eu ficava ali, vendo toda aquela mágica acontecer. E, quando chegava na consistência, pronto! Agora valia rapar o tacho e arriscar uma dor de barriga.
Essa é minha referencia de doce de leite. E odeio isto. Odeio por pensar o quanto é improvável eu me deliciar com aquele doce novamente. Odeio porque eu não consigo simplesmente parar de comer doce de leite e toda vez que comer, saberei que não estarei saboreando do melhor. Odeio porque todo doce de leite que experimento, por melhor que seja, não é o da fazenda do meu avô.
É muito prudente ter referencias na vida. Todo mundo precisa de algo para se balizar, seja na hora de executar um trabalho, de fazer uma escolha, de tomar uma atitude... Um tropeço valoriza demais um passo de dança, o medo engrandece a conquista e a procura sempre enriquece o encontro. As experiências ruins dão valor aos êxitos. Daí vêm as referencias.
As referencias, entretanto, não devem ser aplicadas ao prazer. Quando referenciamos o prazer, o júbilo e a satisfação, estamos nos sentenciando com a frustração.
Então, meu caro doce de leite, minha referência, de tão boa, passou a ser irreferenciável. E,por isso digo, parafraseando uma amiga: “nunca vou te perdoar”.
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